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Entrevista com Julio Zingg

Atualizado: 4 de jun. de 2021


Em determinada curva da estrada Rodovia Henrique Eroles, é possível ver um belo vale verde que avança entre as encostas, permeado por um riacho que graciosamente corta as árvores e aos poucos desaparece em meio ao horizonte. Invariavelmente eu trafegava por ali no início da década de 1990, aos sábados, após o almoço, e meu destino era sempre o Zanzibar, uma casa de shows localizada no Município de Guararema, na região metropolitana de São Paulo, no alto do Tietê, distante cerca de setenta e cinco quilômetros da capital. A razão é que naquela época eu integrava a Zanzibanda como músico contratado, e formava a banda oficial da casa juntamente com os próprios proprietários e músicos Celso Porto e Flavinho (Refari Tuta), também meus amigos.


Tradicionalmente o palco também era ocupado por bandas convidadas, de modo que sempre alguma atração diferente era possível assistir aos sábados, geralmente músicos de São Paulo, do Vale do Paraíba, e algumas vezes de Minas Gerais e Rio de Janeiro, inclusive artistas consagrados, como Lobão, Pepeu Gomes e Nico Rezende, dentre outros. Assim, em um sábado à tarde, no início de 1995, ao entrar pela porta principal do bar, notei que não conhecia a banda que estava “passando o som”, isto é, procedendo à regulagem dos instrumentos (volume de cada um, equalizações, etc…). Soube que a atração inédita era composta por músicos de São Paulo, e se tratava da Kaleidoscope. Como de hábito, sentei-me em uma cadeira no mezanino, e comecei a observar a movimentação no palco e na técnica, como sempre fazia, oportunidade importante para se aprender. De plano percebi que os músicos eram tarimbados, acostumados a toda aquela rotina muitas vezes enfadonha mas necessária de preparativos para o espetáculo, e não tardou a me chamar a atenção o tecladista, um sujeito cabeludo, sempre concentrado nas teclas brancas e pretas, ainda que fosse para tocar naquele momento apenas alguns trechos de músicas, e preocupado com a sonoridade e equalização do seu instrumento e de todos os outros. Seu nome? É claro, estou falando de Julio Zingg, que mais tarde, já adentrando o início da madrugada, quando a música soou para valer, tornou-se uma atração à parte, não somente pela roupa estilizada e a habilidade que lidava com seus instrumentos, despertando curiosidade até mesmo em pessoas sem afinidade com o universo dos teclados, mas também pela atuação performática em determinado momento do show, levando o público ao delírio ao repentinamente tirar do suporte um Korg Polysix e o levantar como se uma guitarra fosse, iniciando um solo incrível. Posteriormente Julio e a Kaleidoscope retornaram àquele palco em outras oportunidades, e eu estive sempre ali, assistindo e aplaudindo.


A vida, no entanto, levou-me para outros caminhos a partir de 1996. Por anos deixei de tocar profissionalmente. Não retornei mais ao Zanzibar, nem mesmo à Guararema. Fixei definitivamente residência em São Paulo e ingressei na faculdade de Direito da Universidade Mackenzie, onde anos mais tarde me bacharelei. Muito raramente tocava em público, e quando o fazia, geralmente era em alguma ocasião festiva, não obstante, as lembranças de todos os muitos momentos felizes que passei em Guararema e no palco do Zanzibar, e dos amigos que ali deixei, sempre me acompanharam por onde quer que eu fosse. Quando retomei a atividade musical, iniciando projetos artísticos no início da década de 2010, reencontrei Julio de forma inesperada: fui convidado para assistir a um show da banda Yessongs no Café Piu Piu, uma casa tradicional de rock de São Paulo, no bairro do Bixiga, e logo de imediato o identifiquei nos teclados, e evidentemente fui ao seu encontro após o término do show, e praticamente não paramos de lembrar dos velhos tempos.


De lá para cá, temos mantido boa relação de amizade, da qual muito me orgulho, e prova disso é essa entrevista que o músico gentilmente me concedeu, revelando aspectos de sua vida musical, anseios e planos.


  • Quando o vi tocando pela primeira vez, percebi imediatamente que sua formação é de músico erudito. Você já me disse que sim, mas agora eu quero saber em detalhes...

Comecei a estudar piano com nove anos. Minha irmã já estudava acordion e eu ficava ouvindo. Minha mãe percebeu meu interesse e perguntou se eu gostaria de estudar algum instrumento. Eu pensei um instante e respondi ¨piano!¨. Antes disso, aos cinco, seis anos eu já gostava de cantar músicas do Roberto Carlos, Jovem Guarda e gostava muito de ouvir música. Qualquer que fosse. Enfim, fiz nove anos de piano clássico no Conservatório Guiomar Novaes na Vila Carrão. Depois fiz Faculdade de Composição e Regência da UNESP. Também estudei arranjo com o mestre Nelson Ayres. Cursos de Música Eletrônica, MIDI...e estava pronto para a profissão de pianista, tecladista, arranjador. O meu primeiro trabalho remunerado foi em 1982 como pianista da peça “Lola Moreno”, dirigida por Ulisses Cruz, ensaiada na Fundação das Artes em São Caetano. Depois comecei a trabalhar com bandas, composição, covers, gravações e arranjos. Como arranjador trabalhei no estúdio do compositor Carlos Randall, onde pude escrever para diferentes gêneros musicais (sertanejo, samba, brega,etc)... ótima experiência. Em 2001 comecei a fazer apresentações solo em hotéis, restaurantes, festas e eventos, com um repertório enorme e em vários estilos musicais. Também tornei-me professor de música em 2001.



  • Provavelmente suas influências são músicos tecladistas, você pode citar alguns?

Bom, entre os brasileiros gosto muito de Mú Carvalho (A Cor do Som), Flávio Venturini, Guilherme Arantes, Lincoln Olivetti, César Camargo Mariano, Nelson Ayres. Entre os estrangeiros Keith Emerson, Tony Banks, Elton John, Rick Wakeman, Jurgen Fritz, Jon Lord e Chick Corea.



  • O caminho natural para quem pretendeu iniciar na carreira de músico profissional é formar bandas, estou certo?

Sim! em 1982, entrei para o “Ananda”, uma banda de jazz-rock autoral que depois foi se transformando numa banda cada vez mais pop. Queríamos fazer sucesso. Foi uma época divertida e muito produtiva. Mas acabou em 1985. Neste mesmo ano montei a banda “Opera”, também autoral, na formação teclados/baixo/bateria, uma experiência muito legal que durou uns dois anos. Depois disso comecei a trabalhar com bandas cover. Destaco o “Columbia Rock”, uma das pioneiras de São Paulo. Depois, a banda “Kaleidoscope”, através da qual eu conheci o grande Renato Moog tocando em Guararema na sensacional Zanzibanda! Em seguida, “Oficina Rock”, “Fire Rock”, “Flip Top”, “Patrulha do Rádio”, “Armagedom” e a atual “Hot Rocks” onde estou desde 2017. Em 2003 integrei a banda de apoio do FICO (Festival do Objetivo) sob a direção de Wander Taffo. Em 2004 acompanhei Maiara e Maraísa (na época eram a dupla “Geminis”) em shows pelo Tocantins, Mato Grosso e São Paulo. Também faço parte desde 2009 da “Yessongs”, banda tributo dedicada ao trabalho do Yes.


  • Quais suas música favoritas?

Bom, existem as que me emocionam do nada. “God Only Knows” dos Beach Boys, “Tiny Dancer” do Elton John, “Ticket to Ride” dos Beatles. Entre as nacionais “Nascente” do Flávio Venturini , “O Melhor Vai Começar” do Guilherme Arantes e com certeza, “Morro Velho” do Milton Nascimento. No geral ouço de tudo, depende do clima e do que estou fazendo. Rock, Jazz, Música Clássica, Música Eletrônica, Disco Music, Samba, Baião, enfim, gosto de muitas coisas diferentes.


  • Conte-me sobre suas composições, algumas que gostaria de destacar?

Comecei a compor com dezesseis anos. Desde canções pop, temas instrumentais, rock progressivo, baião, samba, choro, suítes com várias partes. Na faculdade escrevia peças eruditas. Preciso gravar esse material todo, é um bom projeto. Entre todas, destaco um tema instrumental chamado “Vellocet Suite” para teclado/ baixo/ bateria. Entre as canções pop gosto muito de “Agora e Sempre”, “Trilha Radical”, “Diversão” que gravei com a banda Oficina Rock, e “Voyeur” que gravei com a banda Kaleidoscope.


  • Agora duas perguntas de tecladista, lá vai: conte qual seria o setup que você formaria, com no máximo seis teclados; e qual tipo de síntese sonora você prefere, aditiva, subtrativa, ou FM? e samples?

Puxa, nunca tive mais de três teclados no palco, mas se tivesse uma verba de produção suficiente teria um piano (pode ser digital...rsrs), um órgão, um synth analógico, um piano elétrico Rhodes (aliás tive um, que comprei do cantor Dudu França em 1982), um synth Workstation e um clavinete. Seria uma bela diversão! Sobre a outra pergunta, nunca trabalhei com síntese aditiva. Substrativa sim, comecei com um Korg Polysix. Samples só por necessidade. Agora FM é bacana. Tive um DX7, descolei um livro para entender melhor como programar, aqueles algoritmos todos. Difícil, mas foi uma revolução na música. Os timbres de DX7 estão eternizados nos sucessos da época. De qualquer modo, instrumentos que considero eternos são os sintetizadores moog, o clavinet hohner, o órgão hammond, enfim, coisas dos anos 70. Não poderia deixar de citar o piano steinway & sons. A preferência é por instrumentos vintages, mas na falta deles, os atuais são ótimos.


  • Uma conquista da qual mais se orgulha?

Olha, só de viver apenas de música no Brasil para mim já é uma conquista master! Mas tocar integralmente o álbum “Relayer” do Yes no MIS foi sensacional!


  • Como você lidou com uma situação difícil.

Uma vez roubaram meu carro com um Korg M1 dentro. Nunca mais achei e tive que me virar pra fazer os shows, comprar outro teclado, emprestei uma Kombi velha do meu pai e me tornei um exímio motorista de Kombi...rsrs. Lembro-me de ter ido fazer um recital de piano no Salão Nobre do Teatro Municipal todo chique, quando cheguei com a Kombi vermelha, entreguei para o manobrista, e falei...”Toma cuidado com a máquina!...”. Foi punk essa época!


  • O que te motiva?

A vida já me motiva demais. É muito bom estar vivo!


  • Quais são seus hobbies?

Longas caminhadas no parque onde faço minhas reflexões filosóficas, dirigir a esmo pela cidade, ler livros do Bukowski, assistir filmes clássicos, tomar cerveja e outros birinaites, torcer pro São Paulo, viajar sempre que possível. E claro, curtir um som!


  • O que te deixa desconfortável?

Pela minha timidez histórica, falar em público. Já foi muito pior, hoje em dia sou mais cara de pau, até me divirto com isso.


  • O que você mais gosta e menos gosta em trabalhar com música?

O que eu mais gosto é dos shows. O palco sempre me fascinou e lá eu perco a timidez. Eu não gosto muito de ensaiar, mas faz parte do processo.


  • Como lidar com a internet em termos de música? O que é interessante, e o que não vale a pena?

A internet é ótima para dar aulas, divulgar shows, mostrar o trabalho, magnetizar seguidores. Só tem que aprender a ganhar dinheiro com ela. Exige dedicação e conhecimento para explorar essa mídia. Quem conhece se dá bem com ela. É um caminho sem volta no marketing musical. Hoje em dia é indispensável.


  • Qual o melhor conselho que você recebeu?

Como disse meu mestre Nelson Ayres, “A Economia é a base da Porcaria”.


  • Algum arrependimento?

Acho que poderia ter começado a dar aulas de música uns dez anos antes. As coisas poderiam ser bem diferentes, as interações musicais teriam se multiplicado.


  • O que vem a seguir em sua vida para você?

Um dia de cada vez. Tocar bastante, viajar muito. Como diria Guilherme Arantes, “o melhor da vida vai começar”.


  • Que conselho vc poderia dar para quem pretende iniciar os primeiros passos no mundo da música?

Compre um metrônomo e toque junto. Se conseguir já é meio caminho andado...





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