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Entrevista com Ronaldo Rodrigues

Atualizado: Jul 8


No dia 21 de abril de 2018, um sábado, estive no primeiro dia do Festival Totem Prog 2018, idealizado por Fabrizio Bizu e Roberto Oka. Minha missão foi acompanhar o evento para contar em detalhes aos leitores da revista Teclas & Afins, matéria publicada na edição #49. Na programação do dia constavam as bandas KOLL, Arcpelago, Caravela Escarlate, Terreno Baldio e O Som Nosso de Cada Dia. Nos bastidores conheci pessoalmente Ronaldo Rodrigues, tecladista nascido em Campinas (SP), e atualmente residindo em Niterói (RJ), que em algumas horas subiria ao palco para assumir os teclados das bandas Arcpelago e Caravela Escarlate. Antes, porém, concedeu-me gentilmente esta entrevista em seu camarim.

O setup utilizado pelo músico naquele dia foi composto de um Clonewheel Organ Tokai TX-5 Ds-Plus, que aliado ao emulador de caixa rotatória Neo Ventilator II, mostrou-se poderoso e imponente durante as apresentações. Dois controladores foram também utilizados no palco, um Roland A-800 e um Behringer UMX 610, com geração de sons a partir de instrumentos virtuais, os famosos VSTI's, além de três pedais de efeitos: um Oitavador Behringer, um Phaser Boss, e um Wah-Wah Full Tone Clyde. A base sonora de Ronaldo Rodrigues é constituída principalmente de pianos elétricos e órgão, com acréscimos incidentais de cordas, geralmente timbragens de mellotrons. O estilo é original , constando da bagagem referências de classic rock e também nuances de notável e atraente aura futurista. Vários aspectos foram dignos de destaque das apresentações do músico, além dos solos claros e limpos como desdobramentos de intensa concentração, e também das bases sempre firmes e adequadas servindo sempre ao propósito da música em detrimento de eventuais aspirações pessoais, destaco a eficiente comunicação entre as bandas e o público, máxime explicações interessantes sobre os temas das músicas, sem exageros, antes de cada início.

A entrevista, na íntegra, a seguir.

  • Para começar, fale sobre sua formação musical.

Sou autodidata e comecei com cerca de 11 anos. Meu irmão havia ganhado um teclado de presente e começou a fazer aulas, cantávamos em um coral de igreja. Aí eu comecei a me interessar, ele me mostrava algumas coisas que aprendia, até que consegui tirar uma melodia inteira de ouvido. Depois de algum tempo que já sabia tocar bem e ler um básico de partituras, fiz cerca de 1 ano de aulas de piano e não fui a frente com o estudo formal. O restante do aprendizado continuou sendo autodidata. Os discos foram e continuam sendo meus maiores professores.

  • Quais performances se destacaram em sua carreira?

Fiz uma participação com Sergio Hinds e Fred Barley no show ‘O Terço Lado B’ no Teatro Rival no Rio em 2014, que foi muito emocionante; minhas participações no Festival Aldeia Rock Festival com o Arcpelago em 2015 e 2018, ter tocado com a última formação do Módulo 1000 também lá no Aldeia; shows da Caravela Escarlate no Teatro Café Pequeno e no Casarão Floresta, no Rio, o show de lançamento do disco do Arcpelago em 2016 no Teatro Solar Botafogo. Todos estes momentos foram realmente muito marcantes, com performances das quais me orgulho.

  • Como funciona o seu processo de composição?

As coisas acontecem de forma bastante variada nesse sentido. Há canções que acontecem a partir de jams sessions com o pessoal das bandas, em aquecimentos e passagens de som, outras já são mais pensadas, melodias que surgem na cabeça e depois tento extraí-las no instrumento. Eventualmente sento para tocar em casa e as idéias vão surgindo. Costumo gravar esses fragmentos e fico raciocinando em cima deles ao longo dos dias, mesmo sem o instrumento. Assim, vou esculpindo parte por parte até concluir a música.

  • Sobre o fato de levar uma composição para o grupo, existem alguns protocolos ou procedimentos? Você deixa total liberdade para os músicos criarem os arranjos, ou geralmente você já tem ideia exata de como os instrumentos devem soar?

Minhas bandas tem por pilar a amizade e a consideração mútua. Há espaço para todos comporem e levarem suas idéias. Sendo assim, tudo ocorre com muita naturalidade. Há liberdade para os colegas se manifestarem sobre tudo na música – arranjos, estrutura, andamento, letras, partes vocais etc. Mas eu chego com uma concepção prévia consolidada sobre as partes dos outros instrumentos e frequentemente sugiro essas idéias como ponto de partida. Adoro arranjos e isto é sempre uma das minhas maiores preocupações conceituais. O mais interessante nisso é que, em muitos casos, as contribuições dos colegas são tão boas que me surpreendem, eventualmente até levam minhas composições para outra direção.

  • Diga-me sobre o setup de teclados.

Meu setup não é lá dos mais ortodoxos. Trabalho com um Tokai TX-5 Ds-Plus, acoplado a uma emulação de caixa Leslie (Neo Ventilator II) e um oitavador Behringer e dois controladores que geram sons a partir de VSTIs, que são o Roland A-800 e o Behringer UMX 610. Utilizo também um pedal phaser Boss e um Wah-Wah Full Tone Clyde eventualmente. Como não temos local próprio para ensaios, é necessário eu estar sempre me deslocando com o equipamento, então, neste contexto, conseguir uma grande variedade de sons sem ter que levar 5, 6, 7 teclados é algo que pesa muito para mim. Para os palcos, a mesma coisa – nem sempre a logística e o espaço são muito favoráveis, então, é importante conseguir um som soberbo sem ocupar tanto espaço. Os VSTIs me fornecem emulações que considero bem satisfatórias de clavinete, pianos elétricos, mellotron e sintetizadores.

  • E quanto aos arranjos de teclados dos álbuns originais das bandas Simbiose, Caravela Escarlate e Rascunho, algo foi alterado de lá para cá? Existe alguma de sonoridade que foi simplificado para performance ao vivo, ou ainda mais sofisticada?

Eu busco sempre fazer no álbum algo que seja executável ao vivo. Como ouvinte, eu prezo por bandas que se esforçam para levar “o todo” de sua música para o palco, sem restrições. Então, todos os timbres e arranjos que usei nestes álbuns eu costumo levar para o palco. Isto acaba sendo um desafio extra para além da execução da música em si, que é realizar as transições de timbres durante a performance, lembrar de qual timbre entra em cada parte da música, todos os acionamentos de comandos e etc. Praticamente não houve alterações no sentido do setup utilizado, mas sim, tenho obtido e utilizado novos timbres com os equipamentos que já possuo.

  • Improvisos ao vivo?

Sim. Alguns solos são mantidos tais quais eu gravei, mas para outros abro espaço para improvisação e o que vier na hora. Também nas bases eu costumo fazer modificações sutis ao longo das performances.

  • Vamos falar sobre ídolos?

Valorizo tanto a audição quanto a prática do instrumento e estou sempre ouvindo coisas e procurando aprender com elas. Meus favoritos são Keith Emerson, Rick Wakeman, Dave Stewart, Thijs Van Leer, Jan Hammer, Patrick Moraz, Dave Sinclair, Jon Lord, Kerry Minear, Brian Auger, Vicent Crane, Elias Mizhrai (Veludo), Luiz Paulo Simas (Módulo 1000, Vímana), Manito (SNCD), Roberto Lazzarini (Terreno Baldio), Herbie Hancock e Jimmy Smith.

  • Quais são seus álbuns prediletos?

Pergunta dificílima. Sou colecionador de discos do estilo e gosto realmente de muita coisa. Mas vamos citar alguns: Brain Salad Surgery (ELP), Close to the Edge (Yes), Selling England by the Pound (Genesis), Mirage (Camel), Space Shanty (Khan), Dark Side of the Moon (Pink Floyd), Moving Waves (Focus), A Tab in the Ocean (Nektar), Death Walks Behind You (Atomic Rooster), Captain Beyond (Captain Beyond), Fish Rising (Steve Hillage), Warriors on the Edge of Time (Hawkwind), Criaturas da Noite (Terço), O A e o Z (Mutantes), Veludo Ao Vivo (Veludo), Moto Perpétuo (Moto Perpétuo), Depois do Verão (A Barca do Sol), Terreno Baldio (Terreno Baldio), Snegs (Som Nosso de Cada Dia)

  • Sobre a cena atual do rock progressivo, é, na sua opinião, algo passageiro, ou a tendência é crescer ainda mais, qual sua ideia a respeito deste tema?

O estilo continua aí firme e forte. Passou por alguns momentos de baixa, mas dos anos 70 em diante sempre houve bandas que o mantiveram aceso. O rock (e o progressivo incluso) já atingiu uma perenidade tal qual o jazz e o blues. Vejo tudo de uma forma muito positiva e percebo que o cuidado com a sonoridade, algo que considero fundamental para o estilo progressivo funcionar bem, está em alta! Acho que em termos de Brasil uma grande característica desse nosso momento é que as bandas tem conseguido ser mais consistentes, ainda que os lançamentos sejam mais espaçados, mas não tem sido aquela coisa de lançar um disco só e acabar, sabe? A sonoridade e a produção dos discos brasileiros do estilo também vem melhorando bastante e mostram maior paridade ao que se faz de melhor no estilo no exterior.

  • Quais os planos para as bandas Arcpelago e Caravela Escarlate?

Estamos trabalhando em novas músicas para ambas as bandas, já mirando novos álbuns para 2020. O novo álbum da Caravela Escarlate sairá pela Karisma Records, da Noruega, em CD e LP; o Arcpelago por enquanto ainda está independente. Pretendo também lançar um novo álbum solo (meu primeiro saiu em tiragem muito limitada em 2019), já que esse o panorama nesse ano para apresentações ao vivo está quase inviável. Estou muito animado!





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